Um Caso de Negação Religiosa pelo Vegetarianismo
Por Leonardo Paixão - Psicanalista
Artigo escrito em 16/02/2018 e 05/03/2018.
O bebê não pensa, porém, o seu organismo tende a aceitar ou não certos alimentos como também o contato com esta ou aquela pessoa. Há bebês que não se sentem confortáveis com o colo, ou o choro ou a voz de determinado indivíduo. E isto é manifestado através do choro (negação neste caso, pois o choro pode envolver outros fatores como fome, sede, colo, etc.) ou da quietude (aceitação neste caso, pois que a quietude pode se dar por sono, o se estar brincando, o se estar vendo algo, etc.). Lembremos que até aqui estamos a falar de crianças de colo.
À medida que ocorre o desenvolvimento biopsicossocial do ser humano com a consequente percepção e racionalização dos objetos do mundo externo, o relacionamento com o outro, o prazer, o desprazer, enfim, o que move o sujeito em direção a tal ou qual movimento é determinado por uma escolha diante das sensações que lhe traz um relacionamento, um alimento, um jogo, um filme, etc. Um problema se apresenta agora que estamos a falar a respeito de um ser racional: a dicotomia consciência/inconsciência de sua (s) escolha (s).
No decorrer do desenvolvimento do indivíduo, muitos processos ocorrem: educação familiar, socialização, seja na escola seja no relacionamento com os vizinhos, os conflitos surgidos tanto no seio familiar quanto na comunidade em que vive, a educação religiosa. São múltiplas as ocorrências que contribuem para a formação da personalidade.
Segundo Freud, o ser humano passa por fases em seu desenvolvimento, são elas: a fase oral, a fase anal, a fase fálica, o período de latência e a fase genital. O ser, já adulto, pode se fixar em uma dessas fases e, com isso, apresentar neuroses-obsessivas, neuroses obsessivo-compulsivas, perversões, enfim, comportamentos que destoam do comum.
No caso que iremos tratar aqui, colocaremos as nossas observações em relação ao desenvolvimento da negação religiosa pelo vegetarianismo. Para isso, nos reportaremos ao início desta jornada pelo vegetarianismo.
O paciente L., quando jovem, decidiu seguir pelo caminho do livre-pensar, tendo as suas leituras de filósofos russos como Fiódor Dostoiewsky e Léon Tolstoi, o influenciado ao abandonar os seus compromissos na Igreja Católica (ala tradicionalista), religião na qual foi educado desde a infância.
Conforme a fala do paciente/analisando no divã, sua mãe sonhava em vê-lo sacerdote, já seu pai a nada se referia quanto a isso, percebendo que o filho estava com uma nova postura e preferindo evitar conflitos, calava-se.
Interessante notarmos que a religião católica tem no sacramento da eucaristia o dogma da transubstanciação, que é a presença de Jesus-Cristo na hóstia consagrada pelo padre, após a consagração, conforme o dogma da igreja, Jesus está na hóstia em corpo, sangue, alma e divindade. Estaria aqui a causa da negação de nosso paciente. Vejamos.
Em uma de suas análises, o paciente colocou que havia percebido algo em relação à sua prática vegetariana. Ele se reportou a uma leitura que havia feito de um livro do idealizador do anarquismo, Mikhail Bakunin, onde este associou a prática do canibalismo ao sacramento da eucaristia, reportando-se não a uma provável evolução do homem, mas por manter a prática do canibalismo de modo aceitável em uma sociedade dita civilizada.
No entanto, sendo a hóstia feita de trigo, alimento vegetal, transubstancia-se após a consagração feita pelo padre em carne, sangue, alma e divindade, um verdadeiro rito mágico conforme Bakunin, onde o canibalismo se faz perfeitamente expresso no fato em que, ao se comer a carne e o sangue humanos, absorviam-se as forças e virtudes que estavam naquele corpo. Qual o sentido de o nosso analisando optar por uma alimentação baseada em vegetais? Ele próprio nos responderá: "Os vegetais que como, eu os preparo e a minha religiosidade, se assim se pode chamar a isso, está em meu respeito e valorização pelo ser animal". Notamos que há na fala do analisando a explícita preocupação religiosa, o que nos levou a descartarmos a fonte de sua negação estar relacionada ao sacramento eucarístico e sua associação à prática canibal.
Lembremos que o sonho de sua mãe era que o jovem L. fosse padre, logo, temos aí um imaginário em relação a ele, há um desejo do outro que não é o desejo dele. Aqui também entra a figura do pai e sua educação rígida, quase ascética. Não se podia protestar quando criança, a obediência tinha de ser cega, os "por quês" não tinham resposta ou a resposta era: "São mistérios de Deus", o que era o mesmo de se não ter resposta. Crescido, já um jovem adulto e depois, mesmo na maturidade, o paciente L. fará o seu protesto, a sua negação da concepção religiosa de seus pais. Ele deixará a alimentação onívora e será ovo-vegetariano, de produtos animais comendo apenas ovos. Esta mudança no seu modelo alimentar nos remete ao fato de se não poder rebater, contestar o pai, o que lhe provocava raiva, então o não comer carne de qualquer espécie animal, se liga ao fato de estar o jovem revelando não só que ao comer vegetais está a comer a hóstia não-consagrada como nos revela também o complexo de castração (1) através de uma regressão à fase oral.
Sentindo os olhares de desaprovação de seu pai em relação às suas falas antirreligiosas, o nosso analisando, temendo ser devorado pelo pai - o que nos traz à mente a figura do deus Cronos, mais velho, mais experiente, o pai devorador -, passa a falar sem palavras, não realizando o ato de devorar a carne e o sangue animal, símbolos de poder tal como a hóstia consagrada e o falo, presente nos animais machos e no próprio paciente que é um macho da espécie humana (2).
Identificadas as causas no decorrer de várias sessões, temos hoje no paciente, um homem onívoro, feliz chefe de família e em um bom relacionamento com seus pais e, segundo ele, com conversas sem medo sobre todos os assuntos com o seu genitor.
Referências:
FREUD, Sigmund. Escritos sobre a psicologia do inconsciente/coordenação geral da tradução: Luiz Alberto Hanns - Rio de Janeiro: Imago Ed., 2004.
______________. Um estudo autobiográfico. Inibições, Sintomas e Ansiedade. Análise leiga e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. Ed. 2004. In: Inibições, Sintomas e Ansiedade, ver os casos "Little Hans" e "Wolf Man".
KRISTEVA, Julia. No princípio era o amor: psicanálise e fé. Tradução de Leda Tenório da Motta - Campinas, SP: Verus, 2010.
Notas:
isepol.com
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