Psicanálise e Existência

Por Leonardo Paixão (*)

14/05/2020 (revisado e ampliado pelo autor em 13/07/2023)

A Psicanálise é em resumo o estudo e o tratamento do Inconsciente. Mas, defini-la assim "tratamento do Inconsciente" é extremamente pobre, porque como todo tratamento psíquico, há na psicanálise uma teoria e que não está resumida em um texto ou em uma publicação, o Pai da Psicanálise, Sigmund Freud publicou diversos trabalhos, na edição das Obras Psicológicas de Sigmund Freud, editora Imago aqui no Brasil são 24 volumes! E temos, no decorrer do movimento e da história da psicanálise, produções dos mais diversos autores: Sandor Ferenczi, Melanie Klein, Wilfried Bion, Jacques Lacan, Donald Winicott, Elizabeth Roudinesco (cito estes para ficar nos clássicos, digamos assim).

Retornando à questão da definição da psicanálise temos de ter em mente as suas origens e elas estão intimamente ligadas à Medicina e à prática da Hipnpse, logo ela é um tratamento clínico que tem a sua base na escuta da fala do/a paciente (Associação Livre) e na Interpretação dos Sonhos - considerados por Freud a "via régia de acesso ao inconsciente". E para que estas bases do tratamento psicanalítico funcionem há de o analista estar bem inteirado a respeito dos conceitos do aparelho psíquico - Id, Ego, Superego -, dos mecanismos de defesa do ego, recalque, repressão, transferência, resistência, do estudo dos mitos para bem compreender o Complexo de Édipo, o Narcisismo, as pulsões e os princípios de prazer e de realidade, os atos falhos, enfim, a psicanálise é complexa, daí Freud a chamar também de psicologia profunda.

Podemos aqui dar a seguinte definição da psicanálise: 

Um procedimento para investigação dos processos mentais, praticamente inacessíveis de outra forma, especialmente vivências internas profundas como pensamentos, sentimentos, emoções, fantasias, e sonhos, um método (baseado nessa investigação para o tratamento das neuroses); um acúmulo sistemático de conhecimentos sobre a mente, obtidos através desse procedimento, que gradualmente está se tornando uma nova ciência (aqui cabe observar que a historiadora e psicanalista Elizabeth Roudinesco define a psicanálise como uma "ciência humana").

Como teoria que procura a descrição da etiologia dos transtornos mentais, o desenvolvimento do ser humano e o de sua personalidade, a explicação para a motivação humana, a psicanálise, especialmente neste último quesito liga-se à Filosofia.

Freud foi influenciado pelo pensamento dos filósofos Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche. No primeiro há a ideia do desejo que tem sua origem no que nos falta. E a falta e o desejo para Freud são os fatores que movimentam o comportamento humano em seus conflitos, originando-se aí os problemas de ordem psíquica. Para Schopenhauer há um sofrimento consciente desta falta, para Freud o desejo é a busca (inconsciente) pelo retorno do já vivido.

No segundo, a ideia de que o homem seja capaz de reconhecer em si mesmo a Deus, o super-homem, aquele que se liberta dos preceitos que atravancam o progresso para o novo. Em Freud, somos movidos pelos impulsos reprimidos, o inconsciente nos comanda. Nietzsche fala de uma "vontade de potência", indo para além de uma interpretação darwinista que coloca o ser humano como ser que quer se conservar e adapta-se ao meio em que vive para sobreviver, o Filósofo do Martelo irá afirmar que o ser humano deseja mais do que isso, que ele quer se expandir, dominar, criar valores, dar sentidos próprios ao seu fazer no mundo, não é um ser passivo, é um ser ativo no mundo.

Falar sobre a influência do pensamento filosófico de Schopenhauer e Nietzsche na obra freudiana é fundamental para que compreendamos a visão de mundo de Freud e o quanto tal visão possa vir a influenciar no tratamento psicanalítico e é aqui que se tem de iniciar a segunda parte deste texto ensaístico: a Existência.


(*) Leonardo Paixão é Psicanalista (SBPI), Mestrando em Teologia (FAINTE-PE), Graduando em Filosofia (FAINTE-PE), Graduando em Administração (FAAEC- PR) Teólogo, (FATE-SP/FAINTE-PE); Especialista em Antropologia Teológica e da Religião (FAINTE-PE); Superior Sequencial em Gestão Eclesiástica e Ministério Pastoral (FAAEC-PR). É também escritor, poeta, orador.

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